domingo, 21 de fevereiro de 2010


Profeta Gentileza
Nas décadas de 70 e 80 era muito comum encontrar uma figura que andava pelas ruas do Rio com longos cabelos grisalhos e enorme barba branca, metido numa bata repleta de apliques e paracangalhos, carregando bandeiras e tábuas que simbolizavam a mensagem de um esforço descomunal para propagar o amor, a beleza, a perfeição, a bondade, a riqueza e a natureza. Com o tempo virou um estandarte que desfilava com o propósito dos céus, e a cada passo seu, cada esforço simbolizava a luta pela propagação da paz, pela fraternidade, enfim, pela gentileza. Era o Profeta Gentileza, ou José Dantrino, nascido no ano de 1917 na cidade de Cafelândia, interior de São Paulo e encantador do cotidiano de jovens, idosos, bons, maus, homens, mulheres e crianças. O artista andante, o cavalheiro montado na palavra do criador, o louco pé no chão de uma cidade impecável pela beleza e crueldade. O louco pé no chão do paraíso do Senhor que peregrinava através dos olhos alheios sem nunca pedir um centavo pela pregação que fazia. Ele dizia: "Não quero seu dinheiro, quero muito mais, quero o seu espírito para Deus." E fez isso incansavelmente por 35 anos. Sua presença era conhecida por toda a Baixada Fluminense, na maioria dos bairros do Rio e até no interior do Brasil, um andarilho incansável, uma presença inquestionável de perseverança e dignidade. Caminhando pelas águas da Baía de Guanabara, era o "Pregador da Lancha", todos conheciam aquela figura celestial, por onde passava virava lenda ou motivo de chacota. Em São Gonçalo e Niterói virou um monumento, uma estátua em movimento tombado pela história de sua vida, pela presença de seu esplendor. Por fazer parte integral da história dessas cidades virou um patrimônio de coração pulsante. E lá ia o Profeta Gentileza, movendo-se pelo Brasil inteiro para mostrar a visualidade do verbo, pregar a mudança plástica no coração da comunidade. Foi várias vezes interno do hospital psiquiátrico de Jurujuba e por onde passou deixou sua marca física e visual num mundo acimentado pelo desconforto da falta de cores. Diz a lenda que o Profeta Gentileza perdeu toda a família e enlouqueceu no incêndio do Gran Circus Norte Americano, uma tragédia que matou cerca de 500 pessoas em Niterói quando ainda era José Dantrino, o empresário dono de uma empresa de cargas em Guadalupe, mas o próprio Gentileza dizia: "No dia 23 de dezembro de 1961 eu recebi o chamado de três vozes astrais para deixar o mundo material, e viver o mundo espiritual na terra. Eu deveria vir como São José para representar Jesus de Nazaré na terra, perdoar toda a humanidade e mostrar o caminho da verdade que é o nosso Pai. (...) Fui ao Circo ser o consolador de todos que chegavam desesperados porque perderam papai, mamãe...". Após a tragédia, virou o Profeta Jozze Agradecido ou Gentileza e criou o universo paralelo Paraíso do Gentileza no local do incêndio onde morou por quatro anos antes de começar a peregrinação. No início da década de 80 começou a fazer a grande obra de sua vida, pela qual é lembrado e será lembrado por muito e muito tempo, pintou 56 profecias visuais, os ditos livros urbanos, nas pilastras do Viaduto do Gasômetro. Sua obra começou na Rodoviária do Grande Rio, passou pelo Cajú e foi até a Avenida Brasil acompanhada de um simbolismo etéreo, onde criou uma linguagem baseada na Santíssima Trindade, através de signos religiosos munidos de uma lógica de simbologia trinitária e quaternária. Gentileza dizia: "O Univvverrsso é a criação conjunta de F/P/E (Pai, Filho, Espírito Santo) em VVV e duplamente participação em RR e SS", e dizia mais: "Amorrr material se escreve com um R, o amor universal se escreve com três R, ou seja, um R do Pai, um R do Filho e o outro R do Espírito Santo - Amorrr". Nessas obras, o Profeta definia o capitalismo como o mal do mundo denominando-o como "capeta-capital" ou "capetalismo" e nos mostrava com sua linguagem original que a verdadeira religião está no nosso coração. Fez o caminho de todo grande artista que se presa, mostrou que a verdadeira mudança está no sofrer dos passos firmes da incorrupção de uma vida toda, mostrou que a mensagem sublime, a arte, é um sentimento que deve ser descoberto dentro das maiores profundezas pessoais e que para entendê-lo é preciso aflorar o que está incólume dentro do peito, todos os anseios por liberdade, justiça, amor... Tudo com uma dose necessária de loucura lírica nos olhos de regente. O Profeta Gentileza morreu em 1996 e desde sempre O Galo venerará a sua ideologia, a sua arte, o seu modo de viver, enfim, a sua dignidade de pisar na terra.
Postado por JC às 22:47 0 comentários
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gentileza.O tempo passou, a polêmica sobre a lei Cidade Limpa esfriou, eu formei a minha opinião a respeito e ainda se vê por aí estabelecimentos que ainda não se adequaram a lei e fachadas com “marquinha de biquíni”.Mas eis que hoje, pelos caminhos tortos dos atrasados, cheguei ao seguinte artigo de João Wainer, publicado na Revista da Folha domingo passado, sobre o grafite, o prefeito e a tinta cinza:Guerra do spray.Grafiteiros acusam prefeitura de instaurar política antigrafite; governo diz que não há perseguição[texto e fotos por João Wainer]Depois de passar um mês na Escócia grafitando um castelo medieval construído em 1200, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, 33 -conhecidos como Osgemeos-, e Karina Arcênio Pandolfo, 30, a Nina (mulher de Otávio), desembarcaram em São Paulo no último dia 16, sábado à tarde, e sofreram um choque de realidade. A prefeitura da cidade que durante toda a vida foi para eles uma enorme tela em branco hoje pinta sistematicamente de cinza os muros públicos grafitados pelo trio.No domingo passado, ainda sob efeito do fuso-horário, Osgemeos e Nina juntaram-se aos também grafiteiros Ise e Koyo para pintar muros da cidade como fazem desde 1987, quando deram seus primeiros passos no grafite.Nos pilares do viaduto Antártica, na zona oeste, Osgemeos desenharam uma série de cinco bonecos. Nina fez duas meninas com os cabelos ao vento enquanto Ise e Koyo escreveram seus nomes em letras estilizadas.Os desenhos duraram menos de 16 horas. Nem bem a tinta secou e no dia seguinte as pilastras amanheceram cobertas de um tom acinzentado.Num intervalo de quatro meses, essa rotina se repetiu sete vezes. Os grafiteiros pintavam seus desenhos nos pilares, que em seguida eram cobertos de cinza. Camelôs e transeuntes ouvidos pela reportagem afirmam que funcionários da prefeitura fizeram o serviço de cobertura.O secretário da coordenação das Subprefeituras de São Paulo, Andrea Matarazzo, nega a perseguição aos grafites. “Não existe nenhuma política ou iniciativa nossa para cobertura de grafites; há, sim, uma rotina de limpeza da cidade. Acontece que os grafiteiros também têm uma rotina de pintar, por isso alguns podem ter sido apagados. Mas não quer dizer que foi a prefeitura que cobriu o grafite do viaduto Antártica, pode ter sido a empresa que a prefeitura contrata para pintar o viaduto, por exemplo”, diz.O grafiteiro Ise discorda. “A gente sabe que a natureza do grafite é efêmera, mas uma coisa é ser apagado naturalmente, outra é uma campanha pública antigrafite como vem claramente acontecendo”, reclama.Outros grafiteiros engrossam o coro dos descontentes. Finok, 21, teve tantas obras apagadas recentemente que pensou em parar de pintar na rua. “A prefeitura deveria gastar esse dinheiro com coisas mais importantes como saúde e educação”, afirma. “Posso assegurar que não há direção da prefeitura para cobrir grafite, temos coisas muito mais importantes para fazer”, diz Andrea Matarazzo.Numa reação aos muros cobertos de cinza, alguns grafiteiros começaram a escrever ao lado dos desenhos frases de protesto contra o prefeito. Em uma parede da Vila Mariana, Iaco cravou: “prefeito vagabundo”. Perto dali, um outro desenho ilustra uma manifestação com faixas onde se lia “Kassa ao Kassab”.Um dos sócios da galeria Choque Cultural -pioneira no trabalho com artistas de rua-, Baixo Rodrigues, 41, considera “censura artística” a ação da prefeitura e acredita que o governo municipal não tem noção do valor artístico nem monetário das obras que apagam.“O valor dos artistas é dado pelo mercado, pelos museus, e os grafiteiros brasileiros são considerados no mercado internacional como alguns dos melhores do mundo. Esses grafites que estão sendo apagados são uma doação dos artistas para a cidade e têm de ser tratados como patrimônio artístico”, acredita.O secretário Andrea Matarazzo confirma o desconhecimento: “Não sabemos o valor do grafite, e imagino que ninguém na prefeitura saiba”.Pichação ou grafite?O prefeito Gilberto Kassab deve sancionar em breve o projeto de lei aprovado por unanimidade na Câmara Municipal que institui um programa antipichação, cujo texto prevê que donos de imóveis com muros e paredes pichadas poderão obter recursos da prefeitura para pintar suas fachadas. O projeto, que nada tem a ver com a lei Cidade Limpa -é, inclusive, anterior a ela; data de 2005 e é de autoria de José Serra- também sugere a criação de parcerias entre o governo e empresas privadas que queiram fornecer material para cobertura de pichação.O texto da lei, no entanto, não distingue pichação de grafite. “Não existe definição mesmo entre o que é grafite e o que é pichação no projeto de lei. Eu acredito que pichação são aqueles rabiscos ou hieróglifos. O grafite tem uma forma, um desenho e não degrada tanto o ambiente”, explica o secretário.Enquanto a prefeitura apaga, outros contratam os mesmos artistas a peso de ouro. A escocesa Alice Boyle, filha do lorde de Glasgow Patrick Boyle, que convidou Osgemeos, Nunca e Nina para grafitar o castelo de Kelburn (www.thegraffitiproject.net), que pertence à sua família e é um dos mais antigos da Escócia, diz que qualquer cidade da Europa adoraria ter em suas paredes desenhos de artistas como eles.“É um privilégio poder andar na rua e ver trabalhos com tanta qualidade. O povo não precisa ir às galerias para apreciar desenhos tão bonitos. Sempre ouvi falar dos grafites de São Paulo e acho que pintando-os de cinza o prefeito está impedindo uma ótima oportunidade de turismo para a cidade”, diz a escocesa.Em fevereiro deste ano, os grafiteiros brasileiros Kboco, Speto, Titi Freak, Onesto, Boleta, Zezão, Highgraff e Fefe Talavera, ligados à galeria Choque Cultural, participaram de uma exposição coletiva na Jonathan Levine Gallery, em Nova York, dentro do projeto “Ruas de São Paulo: A Survey of Brazilian Street Art”.Na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, todas as pinturas foram vendidas na exposicão da dupla Osgemeos, que durante dois meses no ano passado foi visitada por mais de 30 mil pessoas, batendo o recorde de visitação da galeria.As palavras do secretario Andrea Matarazzo, porém, vão na contramão do mercado de arte. “Grafite que degrada o ambiente são dos da 23 de maio, por exemplo. Não combinam porque os viadutos têm uma cor, um jardim, e isso interfere na paisagem”, diz.CrimeApesar das dificuldades -e de o grafite ser considerado crime ambiental em São Paulo, com pena de três meses a um ano-, os grafiteiros seguem pintando nas ruas.“Desde que começamos a Prefeitura de São Paulo sempre apoiou o grafite. Graças a essa liberdade, conseguimos desenvolver nosso estilo e pudemos viajar o mundo mostrando essa arte que foi criada nas paredes paulistanas. Por mais que nossos trabalhos estejam nas galerias, nunca vamos desistir de pintar na rua. Essa é a verdadeira essência do grafite”, dizem, em coro, os irmãos gêmeos. “Por mais que o novo prefeito apague, não vamos parar de mostrar para o povo de São Paulo nossa arte.”Para Andrea Matarazzo, nem todo mundo aprecia esse tipo de manifestação. “Um cidadão pode não querer ter seu muro grafitado. É como alguém que não gosta de quadros em casa.”Guilherme Aranha, 30, coordenador da juventude da atual gestão, acredita que São Paulo tolera mais o grafite do que outros centros urbanos. “É importante lembrar que nas grandes cidades do mundo o grafite não tem tanto espaço quanto em São Paulo. Em Madri, na Espanha, que conheço muito bem, não existe espaço para pintar na rua. Em Londres, então, eles seriam presos. Aqui, somos bem democráticos.”Aranha afirma que a Coordenadoria da Juventude mantém um bom diálogo com os jovens que pintam na rua. “Temos conversa permanente com os grafiteiros. O Graphis já foi coordenador do projeto Galerias ao Ar Livre, que teve como última ação o grafite no túnel da Paulista, em 25 de janeiro. Outros que estão sempre conosco são Zeila, Eymard (coordenador do projeto Aprendiz), Nem e Nick.”Questionados sobre os nomes citados pelo coordenador, os grafiteiros ouvidos pela reportagem afirmaram não conhecer nenhum deles.